DESENVOLVIMENTO ANALÍTICO É ESTRATÉGICO NA PRODUÇÃO DE MEDICAMENTOS

Atualizado: Mai 26



POR EGLE LEONARDI E JÚLIO MATOS

Nos anos 1950 a talidomida ofereceu um trágico exemplo da necessidade de maior regulação para evitar a utilização de drogas prejudiciais à saúde e comunicar, adequadamente, os riscos dos medicamentos. Apresentada como ‘droga mágica’, ela foi posteriormente proibida por seus efeitos prejudiciais ao organismo. Desde então, a indústria farmacêutica mundial considera o item ‘segurança’ como um dos principais fatores de atenção durante a produção de medicamentos, tanto quanto a eficácia terapêutica.

O desenvolvimento de métodos analíticos eficazes e confiáveis para o controle de qualidade dos medicamentos comercializados é fundamental na rotina das farmacêuticas, assim como o desenvolvimento de rotinas e análises que, além de servirem para tal, permitam sua implantação em comparação aos métodos usuais.

No Brasil, a implantação da política de genéricos, com a Lei 9.787/99, contribuiu para o aprimoramento da fabricação, controle e garantia de qualidade dos medicamentos.


A aplicação prática de conceitos, como equivalência, biodisponibilidade e bioequivalência, somada ao cumprimento das Boas Práticas de Fabricação (BPFs) subsidiam técnica e cientificamente para assegurar o intercâmbio entre genérico e produto de referência.


Outra matéria sobre o tema: Como o QbD garante a qualidade em todo o ciclo de vida o produto


“Sem dúvida nenhuma, a política dos genéricos foi um marco importante para os brasileiros, porque, além de termos mais acesso a medicamentos com menor custo, passamos a ter produtos mais confiáveis, uma vez que, para ter intercambialidade com o medicamento referência, o genérico precisa ser submetido a testes de equivalência e bioequivalência realizados por laboratórios credenciados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, ressalta o diretor do CDPI Pharma - Centro de Desenvolvimento Profissional Industrial e diretor do Ephar – Instituto Analítico, Poatã Casonato.


Validação


Para garantir que um método analítico gere informações confiáveis e interpretáveis sobre a amostra do medicamento testada, ele deve passar, obrigatoriamente, por um processo de validação, que é quando se demonstrará que o método é apropriado para a finalidade pretendida, ou seja, trata-se da determinação qualitativa, semiquantitativa ou quantitativa de fármacos dentro da indústria. É essa validação que vai garantir que o método atenda às exigências das aplicações analíticas, assegurando a confiabilidade dos resultados.


“Até 2015, antes da formulação da RDC 53, falava-se de impureza, mas não no nível que se fala hoje. Não se conhecia tanto os riscos das impurezas. E, consequentemente, o rigor das legislações era menor. Diante disso, para a maioria dos produtos não existiam análise de impurezas, utilizava-se muito o excesso dos ativos para compensar a perda durante a vida útil do produto e portanto os estudos de estabilidade eram muito mais simples.


O desenvolvimento do produto era muito na tentativa e erro, de forma empírica. O farmacotécnico, muitas vezes, desenvolvia pelo conhecimento dele”, explica a consultora em Desenvolvimento Analítico, Michele Alecrim. Ela participou de um ciclo de lives realizadas pelo CDPI Pharma com o objetivo de oferecer informações e conteúdo fundamentais aos setor farmacêutico industrial.


Vale ressaltar que o desenvolvimento de um produto com tentativa e erro tende a gerar mais desvios de qualidade e, consequentemente, mais lotes reprovados e mais pós-registros.


Com a RDC 53/15, a Anvisa estabeleceu parâmetros para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação em medicamentos com substâncias ativas sintéticas, classificados como novos, genéricos e similares.


Casonato reitera que realizar validação é um processo dispendioso para as indústrias farmacêuticas, sendo necessário, cada vez mais, o aprimoramento dos conhecimentos e habilidades dos profissionais de todos os setores da empresa para que evite gastos desnecessários.


Direcionamento


Segundo Michele, o desenvolvimento analítico é necessário para ajudar o farmacotécnico a se direcionar em todo processo e enxergar o caminho da fórmula que está manuseando.


Na produção de um medicamento é imprescindível que, ao desenvolver ou escolher a metodologia analítica, as análises gerem resultados confiáveis e interpretáveis, para que quando aplicados pelo controle de qualidade possam disponibilizar ao mercado produtos dentro de suas especificações.


Em um processo de validação, alguns fatores são importantes para obter êxito, entre eles:

· Profissionais habilitados e qualificados;

· Equipamentos calibrados;

· Ambiente laboratorial adequado; e

· Padrões e reagentes de qualidade.


“Em um processo de desenvolvimento analítico, primeiro é necessário se perguntar qual o objetivo do método. Eu não preciso analisar tudo o tempo todo, porque isso despende muito tempo e dinheiro desnecessário. Por exemplo, se o foco é estabilizar a formulação eu não preciso fazer análise de dissolução, posso focar em análises de teor e impurezas.


Nesse racional de desenvolvimento, é fundamental que o profissional farmacotécnico procure primeiro desenvolver uma fórmula que vise à estabilidade do produto, só depois se pensa na performance desse medicamento, ou seja, com a fórmula estável, faz a verificação do melhor processo para se conseguir atingir esta performance”, explica Michele.


IFAs e estabilidade


Segundo ela, quando se fala em estabilidade de fórmula, em geral estamos buscando alterações qualitativas. Nesse processo, por exemplo, pode ser necessário trocar o tipo de excipiente utilizado na fabricação. Já a melhoria de performance do produto é possível por meio de alterações quantitativas de excipiente, quer seja alguma alteração na característica do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) – matéria-prima da fabricação de todo e qualquer medicamento.


“Os IFAs representam o início da cadeia produtiva da indústria farmacêutica. Para assegurar a qualidade desses insumos, a Anvisa é também responsável pela autorização de funcionamento das empresas e pelo controle sanitário deles, mediante a realização de inspeções sanitárias e a elaboração de normas”, complementa Casonato.


De acordo com o Conselho Internacional de Harmonização de Fármacos para Uso Humano (ICH) - principal fórum mundial de harmonização de requisitos técnicos, composto por autoridades de regulação e indústria farmacêutica, os testes para impurezas podem ser quantitativos ou um ensaio limite para a impureza na amostra.

Ambos são destinados a refletir, exatamente, as características da pureza da amostra.


São requeridos parâmetros de validação diferentes para um teste quantitativo que para um ensaio limite. Esse tipo de teste é amplamente utilizado na análise de impurezas na matéria-prima, produtos de degradação em produto acabado, solventes residuais, impurezas elementares, entre outras.


Os profissionais da indústria farmacêutica precisam estudar e adquirir conhecimento em relação ao produto e controlar cuidadosamente todos os elementos e matérias-primas que compõem o medicamento. Segundo Michele, é fundamental controlar e conhecer como os IFAs e tais parâmetros de processo interferem no produto final, que devem ser controlados. “É preciso desafiar os parâmetros e desafiar as matérias-primas, com a finalidade de ter um produto de qualidade”, evidencia a consultora.


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